Artigos de Lúcio Packter

título - A lógica dos livros de auto ajuda


artigo publicado na edição 37 da revista Filosofia, da Editora Escala.

Iricélia foi magoada pelo homem que amava. Combinou fidelidade com ele no início do noivado e soube durante o casamento que a validade do acordo havia expirado. Iricélia passou a sentir rancor, mágoa, raiva de Ticeu.

   O divórcio veio. Para Iricélia foi o único divórcio em sua vida. Ticeu conheceria mais dois divórcios e um abandono antes que a vida lhe surpreendesse com um acidente vascular fatal.

    Iricélia, nas poucas vezes que encontrou Ticeu, notou que ele percebeu o que ela sentia e que se mantinha acuado, quieto.

     O fato de sentir rancor, mágoa, raiva com relação a Ticeu, pouco afetava este, mas afetava muito Iricélia. Manter-se magoada, rancorosa, enraivecida fazia que não tivesse outras vivências e suas experiências raras vezes se afastavam destes elementos, freqüentemente eram afetadas por eles.

    Tudo isso Iricélia descobriu lendo os livros de autoajuda. Passou a crer que para todo mundo é assim. E em todas as ocasiões ela dá de presente livros de autoajuda. Ticeu ganhou um antes de morrer: Como perdoar perdoando-se.

      A questão é que, como cada pessoa possui um funcionamento único, para algumas pessoas é oportuna a mágoa, a raiva e a dor como instrumentos dialéticos de resolução, como critério de aprendizagem, como dispositivo de aprimoramento, etc., etc.

 

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