Artigos de Lúcio Packter

título - Semioses Multíplices


artigo publicado na edição 45 da revista Filosofia, da Editora Escala.

Você provavelmente já conviveu com algumas pessoas que somente conhecem um idioma, o português. Elas não saberiam, por exemplo, dizer “Je vous aime” a um francês ou “Ich liebe Sie” a um alemão, mesmo que os amassem.

      Essas pessoas são monolíngües, falam uma só língua. Esperamos então, para o bem delas, que não precisem utilizar outro idioma que não o seu próprio. Assim elas não sofrerão e não farão sofrer o vernáculo.

         O mesmo ocorre com a semiose.

       Algumas pessoas possuem somente um dado de semiose para usar em determinado contexto.

    Ania, uma garota de 16 anos, pode exemplificar:

 - “Não adianta mandar bilhetinhos, e-mails, telefonar. Quando o que tenho a dizer é importante, necessito estar diante da pessoa, olhando nos olhos dela, para poder dizer o que sinto.”

   Não é raro, é mesmo bastante comum que a pessoa utilize um dado de semiose específico para determinados eventos na vida.

   Se algumas mulheres acreditam que somente amarão um homem quando tiverem acesso a uma certidão de casamento; e se alguns homens supõem que somente conseguem demonstrar amor pela companheira se tiverem intimidade maiores com ela, novamente estamos diante de casos monolíngües.

   O filósofo clínico tem acesso ao fato de uma pessoa usar predominantemente, ou exclusivamente, um único dado de semiose porque durante a historicidade da pessoa aparecem reiteradamente, de diversas maneiras, expressões como as que seguem, sempre devidamente contextualizadas:

- “No fundo, eu somente consigo dizer o que penso escrevendo; a única maneira de expressar o meu amor por Deus é pintando; é pelo surfe que minha alma se coloca no mundo; o beijo é a sincera manifestação do carinho e nada mais; a escultura é o meu contato direto e único com a minha inspiração.”  

   Mas existem os plurilíngües dos dados de semiose.

    O pai de Dulce diz a ela para nunca mais dizer palavrões em casa perto do irmãozinho, o Juninho. Como Dulce tem mais de um dado de semiose, ela começa a desenhar corvos e papagaios em situações de ofensas mútuas; ela, aproximadamente, desenha os palavrões que não pode dizer.

    Mas a mãe de Dulce proíbe a menina de desenhar coisas que considera improbidades. Afinal, ela quer que a filha pareça normal...

    Antes de prosseguir, quero comunicar que os três pontinhos também constituem dados de semiose.

     Bem, estávamos tratando de Dulce.

    Ela então começa a aprender a tocar piano. Mais tarde, torna-se uma aliada de Debussy e em seus treinamentos, horas e horas por dias infinitos, devolve novamente aos pais aqueles  palavrões em sonoras sequencias cacofônicas.

O exemplo de Dulce é realmente simples e tem como objetivo somente tornar acessível uma questão que usualmente pode tornar-se complexa no consultório.

Em Filosofia Clínica, semiose significa o que a pessoa usa para se expressar.

  Uma fotografia amarelecida, que quando você perdeu já era muito antiga, reencontrada sobre o criado-mudo, que você percorreu mil vezes e não viu, lhe trouxe uma antiga lágrima nos olhos, é um dado de semiose. Talvez na época em que foi batida a fotografia ela nada tenha lhe dito, precisando avelhantar-se para então se tornar um dado de semiose.

  Aquela vez em que o olhar suave de sua mulher mostrou que você estava enfim perdoado de algo que na verdade sequer havia cometido chegou até você, ali houve um outro dado de semiose.

   Como também quando Marcela empunhou a flauta de pau que você trouxe de Edinburgh e soprou um tranquilo ‘parabéns a você nesta data querida’, houve semiose. Este dado de semiose poderia ter sido mais aprazível se de fato ela soubesse o que estava tentando tocar.

 Sabe aquela massa de farinha de trigo cozida com manteiga e queijo, mais molho de tomate, mais um vinho da serra gaúcha, que você fez após freqüentar dois meses de aulas de culinária (que você diz que não teve) e ofereceu aos amigos em uma noite de lareira e longas conversas ao pé dos estalidos do nó-de-pinho? Isso tem como nome semiose.

   Um disco de vinil de Stan Getz que damos a quem amamos porque ela está de aniversário ou porque em algum momento estará; faltar a uma reunião importante em um sábado à tarde de chuvinha miúda somente para ficar em casa fazendo um amorzinho gostoso com a mulher é um dado de semiose, além de uma irresponsabilidade deliciosamente compreensível.

   Cantar no banho, já que os amigos não permitem mais que a gente use o karaokê; dançar uma milonga usando perigosamente uma daquelas botas costuradas a mão; escrever uma longa carta urgente que depois nunca será enviada ou que será; ter uma enxaqueca ‘básica’ por não ter escrito a carta; passar por uma  delicada cirurgia plástica e um ano depois contar aos amigos que foi pura malhação na academia; pintar quadros que somente a gente entende que são impressionistas; conversar, conversar, conversar e conversar; jardinar na casa de nossos avós que nos preferiam dormindo a ter intimidades com as orquídeas que eles amam; trabalhar na oficina que construímos na garagem e, agora sim, com a aprovação dos avós; traspassar noites em chats na Internet ou em coisas como programas para insones na televisão.

É comum ocorrer no consultório o tipo de comunicação que está colocada a seguir:

“- Eu preciso e quero muito colocar para fora isso que carrego comigo, mas cada vez que surge uma oportunidade a minha garganta fecha, inflama. Faz um mal guardar isso comigo. Não consigo falar sobre isso porque me dói muito.”

 Se você for a um dentista e ele propuser fazer um tratamento de canal sem o uso de anestesia, você aceita?

É surpreendente que quando uma situação semelhante surge em clínica o procedimento seja tão diferente.

Algumas dores na psique podem se apresentar tão robustas que mesmo a maior coragem e determinação da pessoa não podem fazer frente a elas. A pessoa padece e sucumbe com grande sofrimento.

Pois exatamente em casos assim a Tradução costuma revelar-se eficaz.

Inicialmente, devemos afastar alguns enganos comuns. Impelir a pessoa a gritar, a dar socos em almofadas, a espernear, a escrever, dançar, a promover movimentos que levarão a um aprofundamento da respiração, tudo isso costuma causar mais danos do que benefícios se realizado de modo coercitivo com pessoas fortemente problematizadas. Soquear almofadas, por exemplo, quando não tem nada com relação aos dados de semiose que a pessoa utiliza, no máximo a deixará cansada. Existe uma infeliz pobreza hermenêutica em achar que gritar ou dançar servem como aspectos traduzíveis, se isso não foi antes verificado na historicidade ou se faz sentido à Estrutura de Pensamento da pessoa.

Outra inexatidão diz respeito a um problema de alcance ainda maior. Um exemplo pode ser de grande valia aqui. Vamos presumir que um filósofo clínico é chamado a trabalhar em um presídio e lá comece a atender um recluso que já tenha tentado o suicídio por três vezes. A razão última é que ele não consegue “viver sem liberdade”. O problema parece se agravar quando, ao examinar a ficha do homem, o filósofo clínico conclui que ele ainda deverá cumprir vinte anos, na melhor das hipóteses, de vida em cárcere. E agora?!

É tranquilo perceber que não podemos cerrar as barras da cela, não podemos simplesmente soltar o homem de sua cadeia, pois ele voltaria para lá e teria a provável companhia do filósofo clínico, que agora também cumpriria pena.

Bem, para o afortunado homem enclausurado, o filósofo clínico estudou a historicidade dele e percebeu uma peculiaridade. A peculiaridade dizia respeito ao fato de o homem associar a liberdade ao fato de poder ler e escrever, coisas que lhe foram proibidas na prisão.

A mudança que a sociedade lhe impôs, a de sair da vida na cidade para a vida no cárcere (Como o Mundo Parece) pouco significou para ele, principalmente porque a liberdade, algo determinante na Estrutura de Pensamento do homem, tinha a ver com o dado de semiose, e este sim o atingiu.

Muitos dos que são presos, ao contrário do que possa parecer pelo senso comum, na verdade não estão sendo punidos, mas sim premiados. O mundo, tal qual está constituído hoje, é que é a prisão para muitas pessoas que encontram na masmorra um alento para existir. Lá, a comida, o teto, a subsistência, até certo ponto são muitas vezes mais garantidos. Nesse sentido, é na prisão que muitas pessoas conhecem verdadeiramente a liberdade.

Evidentemente não é o caso deste homem que está sendo atendido por um filósofo clínico. Mas a sorte muda quando lhe são dados os papéis, as canetas e os livros de que necessita para ser livre.

O que gera novos problemas.

Pois podemos questionar agora a legalidade do que fez o filósofo clínico ao libertar um homem que a sociedade dos homens condenou à clausura.

De fato, não é preciso colocar uma pessoa em uma penitenciária para privá-la da liberdade. Dependendo dos dados de semiose, e sendo a semiose o tópico determinante na Estrutura de Pensamento da pessoa, prendê-la e libertá-la existencialmente não terá necessariamente relação com travas, barras de aço, cercas e guardas.

 

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