Artigos de Lúcio Packter

título - As alternativas, as maneiras, os caminhos


artigo publicado na edição 43 da revista Filosofia, da Editora Escala.

Durante a tarde de um dia ensolarado, antes das minhas aulas naquela cidade, como de costume, fiz atendimentos a várias pessoas nos jardins da Universidade.

 Uma senhora, a quem vinha atendendo há meses, fazia sua última consulta comigo. Seu marido morrera no início do ano sem que ela pudesse lhe dizer algo que havia guardado por toda a vida.

 Casaram-se jovens, tiveram filhos, e ele sempre a amou acima de tudo. “Um homem de valor, um bom pai, um bom marido, um bom” – disse-me ela em uma consulta anterior.

  Mas o fato é que ela nunca o amou. Granjeava carinho e amizade, que ela sabia diferenciar e afirmar não serem amor.

No íntimo, compreendia que ele sabia disso; no entanto, jamais tocaram no assunto. Houve brigas graves durante a vida em comum, houve acusações e mágoas, e nunca sequer um dos dois mencionou esse fato, um segredo que ambos conheciam, que ambos guardavam como se o outro não soubesse.   

Desde a morte do marido, ela construiu uma Busca difícil de ser atendida; tal Busca consistia em falar a ele sobre isso.

Estávamos sentados em um banco de madeira, perto de uma belíssima gruta com uma pequena peça escultural de Maria, onde um curso artificial de água corre. Os primeiros alunos da noite começavam a chegar.

Havíamos trabalhado a Busca nas últimas consultas. Ela então se precipitou, abriu a bolsa e puxou um pequeno gravador.   

Delicadamente, ligou e ouvimos por quinze minutos o que ela não disse por muitos anos ao marido e agora finalmente dizia. Naqueles minutos, ora demorados e ora breves, ela manteve a cabeça sempre baixa e chorou; chorou muito e silenciosamente.

  Na fita ela confessava que nunca o amou, que, em realidade, casara por vicissitude de um capricho. Confessava que muitas vezes sentira repugnância quando ele sentira desejo; afirmava que em diversas ocasiões se divertiu com os embaraços por bagatela que ele cometia ao expressar a afeição que sentia; que por duas vezes teve encontros íntimos às esconsas com outros homens; que viver com ele era cômodo financeiramente e que por isso seguiu casada quando na verdade desejava a separação. Depois acrescentou que ele foi o homem mais bondoso que conhecera; aprendeu a respeitar suas fraquezas, pequenas diante de seu carinho pelos filhos e por ela; disse, em voz penosa e intensa, que aprendeu com ele honestidade, compromisso, fé. Agradeceu, dispendiosamente devido à emoção,   pela vida maravilhosa que tiveram. Pediu, infundindo um carinho repentino à voz, que Deus o abençoasse e que, se possível, fosse perdoada pelo verdadeiro amor que teve e que quando enfim estava pronta a corresponder por ter compreendido, perdeu.   

Enxugou suavemente as lágrimas. Em paz, guardou o pequeno gravador. Deu-me um beijo na face e me dirigiu um olhar repleto de gratidão; caminhou em direção à saída. 

  - Adeus, Dr. Packter – foi a última coisa que me disse.

Eu tinha ainda alguns minutos antes de me dirigir às aulas. Olhei para a meiga imagem de Maria, na gruta que fica no jardim, em sua complacência. Com minha alma comovida e agradecida, arrumei alguns papéis na pasta, olhei para o céu costumeiramente impressionista de Ribeirão Preto, e pensei sobre os caminhos curiosos que fazem as trajetórias da vida serem como realmente são.   

      

 

 

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