Artigos de Lúcio Packter

título - Universidade Federal do Amazonas e o Homem sem Emoções


artigo publicado na edição 39 da revista Filosofia, da Editora Escala.

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS E O HOMEM SEM EMOÇÕES

Durante uma palestra em Manaus, uma professora da instituição perguntou-me sobre os problemas em torno de conviver com pessoas “psicóticas”, definindo o termo mencionando gentes que não têm sentimentos, frias, racionais, que não estabelecem vínculos.

Lembrei-me então de um homem a quem atendi há anos quando fui para um ciclo de conferências em Belém. Ele veio conversar sobre este tema para saber se o fato de não se emocionar com a dor, a alegria, o medo, as esperanças dos outros seriam uma patologia. De parte da resposta dependia o emprego dele.

Após caminharmos pelos espaços abertos das ruas no centro, conversando, pareceu-me que, para ele, não ter emoções foi um fator de equilíbrio, de ajuste, diante de uma família cujos gritos, brigas, ódios ele não tinha como administrar. Intuitivamente salvou-se ao anestesiar algo que provavelmente lhe causaria imensa dor: as emoções. Quando escrevo que ele não tinha emoções quero ilustrar que as possuía em tão poucos caracteres, se relacionarmos aos demais elementos existenciais em sua vida, que as emoções tornaram-se praticamente irrelevantes para ele. Aquilo que Francesco Petrarca conseguiu ao conversar a fé com o sentimento, este homem distraidamente desfez.

Em Filosofia Clínica não existe patologia. Suponho que no caso dele, mesmo considerando pelo jargão médico, dificilmente encontraríamos uma patologia. Ele elegeu a Ética como a estrada de interseções com os outros. Não magoava, não feria, não desfazia dos outros, como também de si mesmo, porque decorou um protocolo de procedimentos que lhe asseguraram a boa sorte em vida. Eventualmente, ele atualizava suas regras.

 

 

 

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