Artigos de Lúcio Packter

título - Retroações


artigo publicado na edição 39 da revista Filosofia, da Editora Escala.

 

RETROAÇÕES

Uma pessoa afirma que deseja retornar, voltar, recuar passos até um período existencial no qual as disposições lhe pareciam bem. Para fazer isso, entre outros aspectos, a pessoa precisa saber onde está existencialmente e o sentido (ir ou vir) de sua jornada rumo ao que deseja. Se não for assim, a pessoa pode caminhar achando que está se aproximando de algo, enquanto executa movimentos que a afastarão mais, mais. Alguns indivíduos, perdidos existencialmente em seus movimentos, promovem retornos sem saber que estão avançando para o inédito do novo; acreditam que estão de volta a algo que se revela uma nova vivência; deste modo, alguns acabam vivendo nesta novidade parte do que procuravam ao mirar seus recuos.

Além disso, retroagir pode significar que ao chegar lá a pessoa encontrará tudo diferente, ou diferente na proporção em que simplesmente desista disso. Pode considerar que não é mais a mesma coisa.

Muitas vezes o melhor de uma vivência qualquer já passou. Muitas vezes é possível recuar e permanecer neste melhor que já passou. Muitas vezes não é. Quando possível for, é urgente que o filósofo clínico pesquise quais elementos a pessoa retroagirá com este andar para um acontecido. Por exemplo: se a pessoa, ao recuar até a época de suas esperanças inviabilizar as buscas que possui hoje, que talvez não possam ir juntas com ela, e se tais buscas forem determinantes para esta pessoa, uma retroação pode significar perdas tremendas diante de benefícios mínimos. Isso, longe de alguma regra, pode não significar muito para a pessoa.

 

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