Artigos de Lúcio Packter

título - Quando Assis morreu


artigo publicado na edição 36 da revista Filosofia, da Editora Escala.

Quando Assis morreu, Michele plantou unha de gato, uma trepadeira lenhosa de onde brotam flores amarelas, junto ao gradil do jardim. A folhagem tem por baixo umas gavinhas que prendem ao gradeado a planta, os tubérculos comestíveis.

Em caixilhos de madeira trançada, Michele colocou as verbenas, as flores delicadas, cor de rosa, perfume suave. No contorno que leva ao pergolado de madeira, ela ordenou em dois lados os agapantos. Os azuis tomaram então conta do jardim.

Para lá e para cá, Michele espalhou cuidadosamente as pervincas aromáticas, os gerânios e suas flores com pétalas vermelhas em vasos de terracota. As pequeninas flores violáceas das violetas emolduravam as janelas de Michele. E lá, junto à fonte, as alamandas subiam pelas portinholas do portão.

Quando Assis morreu, a casa se encheu de sebinhos com o peito amarelo, de bem te vi, de sabiás tomando banho e espalhando água na fonte que escorre pelas pedras. De vez em quando, uma revoada de borboletas perto dos jasmim dos poetas com aquele mar cheiroso de flores brancas.

Quando Assis morreu, Michele cobriu as lajotas de terra, o pátio do automóvel virou um canteiro de agapantos, a oficina de ferramentas deu lugar aos instrumentos de jardinar.

Michele voltou a sorrir porque voltou ao jardim, Michele voltou a assobiar seus desafinados trinados, Michele se apanhava feliz junto à sombra do pergolado de madeira. Com 72 anos de idade, ela aguardou.

- Esperei 30 anos para ter meus passarinhos de volta.

Porque Assis havia cimentado o pátio e colocado lajotas nos espaços restantes. Porque Michele achou que tinha que ter sido assim. Porque tudo aconteceu assim.

* voltar à página principal