Artigos de Lúcio Packter

título - Fragmentos


artigo publicado na edição 35 da revista Filosofia, da Editora Escala.

    

Principalmente a partir do feudalismo, e provavelmente antes dele, havia alguns princípios lineares nos quais valores, éticas, preceitos, arrumações gerais usadas em casa serviam para a atividade pública, para o comércio, para a vida. Um indivíduo poderia manter-se como era nos vários âmbitos de sua existência.

Com os séculos XVII e XVIII uma tendência em andamento se aprofunda: a fragmentação das vivências, da mente. Nos séculos seguintes a fragmentação mostrou que determinadas especificidades nos relacionamentos, na família, no trabalho, na religiosidade não poderiam mais ser conciliadas segundo algum critério que levasse à paz, ao convívio harmonioso.

Alguns aprenderam a viver com estas peculiaridade, seguem altivos para um novo tempo. Muitos não têm como viver o que consideram paradoxos. E muitos andam quebrados ao meio por angústias referentes a terem uma mente feudal que vive em um mundo de 2009.

Quando Jacy veio ao consultório, ela trouxe como queixa não compreender como podia ter êxito no trabalho, ser uma líder no clube, e sofrer tantos ferimentos em suas relações com a família. Para Jacy era natural comparar estas instâncias, mas em um mundo fragmentado o trabalho, o clube podem nada ter a ver com a família. Muitas Jacys andam pelo mundo perdidas porque forçosamente tentas emendar aspectos que, pelo modo como vivem, não podem mais conviver sem uma fratura no meio. A fratura é o elo de ligação. A ruptura, neste caso, funciona como o que anuncia a outra parte e não como o que convida a uma união.

Fernando foi um bom namorado de Jacy, mas é um marido complicado; Adilson casou-se com Fátima e tem dois filhos com ela, mas quando perguntado sobre a família ele pensa nos velhos pais que moram na Flórida; Renata está no terceiro casamento, no segundo câncer e tem uma religião que lhe enche de culpa; Carla será indicada como diretora da escola e seu filho do meio reprovou no primeiro semestre na faculdade; Adna, especialista em tratamento a usuários de cocaína é constantemente tida alcoolizada; Patrick, juiz, rouba nos jogos de canastra; Marlice, conselheira matrimonial para casais heterossexuais é homossexual; Leonita, professora de literatura, prefere a televisão ao livros.

As prováveis fragmentações não constituem a priori contradições. Podem ser desdobramentos, complementações, vivências antônimas ou outra variável.

 

 

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