Artigos de Lúcio Packter

título - Edinburgh, 12 graus, outono de 2008


segundo de três artigos publicados na edição 29 da revista Filosofia, da Editora Escala.

Estou morando neste outono na Inglaterra, de onde uma viagem de trem até a Escócia é filosoficamente recomendável em vários sentidos. Há uma crise nos mercados com poucos precedentes nas últimas décadas, o principal Banco Escocês inclina-se de modo preocupante para o abismo, as coisas não estão bem. Existe preocupação, incertezas, alguns olhares se tornam agudos e divisam as planícies. Olhando por esta vidraça perto da Princess Avenue, de onde avisto o Castelo sobre o rochedo, aqui dentro quente, uma luz em meios tons, 12 graus lá fora, um livro para folhear, o aroma do café no ar, procuro inutilmente me concentrar na leitura, enquanto na mesa ao lado um casal parece não se importar que eu partilhe de uma conversa que provavelmente teria seu melhor lugar entre os dois.

Ela ouve a maior parte do tempo, acaricia o guardanapo, dobra-o cuidadosamente para cuidadosamente desdobra-lo a seguir, tudo muito piedoso. Que olhos lindos ela tem. De vez em quando olha para fora, mas não parece vislumbrar qualquer coisa que lhe diga respeito. Então, ela diz uma única coisa antes de se levantar e partir.

- (com forte acento highlander) Sabe, John, perto da minha casa, ao norte do lago, tínhamos uma vizinha que possuía o peculiar hábito de fitar pela janela todos os dias de manhã. Eu era pequena e ela me passava a impressão de que esperava algo, espera alguém, esperava. Mais tarde eu descobri que ela fazia isso somente quando as coisas não estavam bem. E então isso me chamou a atenção e eu fui perguntar a ela sobre isso. Ela me disse que aprendeu com a vó dela a criar expectativas interessantes, diferentes do que corria na vida, a alimentar isso, a olhar insistentemente pela janela, aguardando. Vinha o carteiro e trazia más e boas notícias, vinha um vizinho com um bolo de cogumelos, vinha sua filha e, um dia, vim eu. Eu gostei disso e tomei emprestado para a minha vida. Uso a janela do meu apartamento, como ela usava a dela. Uso também outras janelas, como a estação de trem, este pub, e as algumas aulas na faculdade. Depois do que você me disse aqui, eu vou chorando até em casa, vou pensando que o mundo acabou até em casa, vou querendo morrer, sabe? Mas depois disso eu não vou chorar mais. Eu vou para as minhas janelas. É assim que eu vou fazer.

Eu a vi levantar, beijar levemente o rosto do rapaz, e  sair. Linda moça, lindos olhos, palavras lindas. Não sei que horas eram aquilo, mas após as 15h00 em geral anoitece rápido. Esqueci de tomar meu café. Peguei meus papéis, arrumei o manto ao redor dos ombros, o casado, precisava retornar. À porta do pub demorei-me uns segundos para observar um dos belos contrastes que fazem de Edinburgh um cartão postal: trechos cinzas do céu abriam passagens para nesgas de luz do sol que desciam, coloriam as casas, esparramavam-se pelas colinas. Não pude deixar de sorrir ao imaginar se seriam estas partes das minhas janelas.

 

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