Artigos de Lúcio Packter

título - Doença é doença?


primeiro artigo publicado na edição 03 da revista Filosofia, da Editora Escala.

O neurologista Oliver Sacks trabalhou diversas vezes com a síndrome de Tourette, manifestação que provoca tiques, trejeitos, um comportamento socialmente grotesco. Assim como em outros estudos, Sacks concluiu que muitas vezes a pessoa precisa de sua doença para ser normal.

Muita gente ficaria sem graça sem suas artrites ou a constipação de final de semana; as enxaquecas, então, costumam acontecer com uma pontualidade surpreendente. Quanta chatice, quanta compota na casa da sogra, quantos programinhas sonolentos a dorzinha de cabeça já poupou¿

Assim como alguns medievais apelavam a uma flagelação de si mesmos com chibatadas e reclusão, o mesmo um câncer pode fazer por nós... matando aos poucos, com garantias de sofrimento e expiação. Mas em outras vezes um câncer será somente um câncer.

Quanta culpa no mundo já não foi abrandada por infecção urinária¿

E, neste sentido, a doença é parte importante da normalidade. Ela resolve problemas, ajuda a viver em épocas difíceis, é didática e, em parte considerável dos casos, talvez não devesse ser debelada a socos farmacológicos.

Vamos tomar como exemplo um acidente vascular; ele pode dar a chance ao indivíduo de sair de uma ardilosa manipulação familiar que o aprisionava, pode fazer com que a pessoa pare para repensar a vida  ( uma vez que de outra maneira isso não aconteceria), pode simplesmente trazer coisas como férias ou pode, tão somente, ser um lamentável episódio vascular. Não são raros os que elogiam um acidente vascular como o conselheiro que colocou a vida em dimensões melhores.

O ensinamento é que a doença não é necessariamente um mal, algo abominável a ser caçado com tomografias e antibióticos quando evidencia os primeiros sintomas.

Olha, deveriam existir clínicas especializadas em deixar a pessoa doente: uma amigdalite, um prurido que fosse. Muitas pessoas ficariam felizes e usariam suas comichões para desde faltar ao trabalho até o rompimento de uma relação difícil.

Estar gripado, ter uma diarréia leve de vez em quando, uma febre de inverno, apendicite ou alguma cirurgia corretiva, tudo isso pode ser um modo de ser saudável. Poderia ser uma recomendação do Ministério da Saúde.

É oportuno considerarmos também que muitas vezes o sofrimento ensina apenas a sofrer; para alguns, tarefa inútil.

Não tivesse caído doente, Nietzsche provavelmente teria seguido a enfermagem; Schubert talvez nunca tivesse retomado seu trabalho como preceptor dos Esterházy, que lhe trazia imenso bem, caso não tivesse combalido adoentado; Balzac teria se casado com Éveline Hanska caso já não estivesse seriamente abalado, como contam as boas e as más línguas¿  Foi a endermidade que propiciou a José de Alencar conhecer Londres, Paris e Lisboa em 1876. A lista é longa. Por isso, terminamos com Arthur Rimbaud, exímio freqüentador de listas de doentes famosos, Arthur teve um câncer que o levaria a aceitar a fé católica pelas mãos da freira Isabelle.

Enfim, nos brindes, por favor, não desejemos somente saúde às pessoas, mas alguma doença também.

 

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