Artigos de Lúcio Packter

título - As Flores da Inglaterra


primeiro artigo publicado na edição 28 da revista Filosofia, da Editora Escala.

Ao chegar à Londres e ao sul da Inglaterra neste início de outono fui a uma casa de telefonia para colocar uma pequena placa, pagar uma taxa de 25 libras, e ter meu pequeno computador pessoal conectado à Internet. O rapaz que me atendeu explicou o funcionamento, tudo simples e rápido.

À saída, notei em um monitor o que me pareceu o final de uma matéria sobre um tipo de serviço que não conhecia: declutterer. Um profissional que o cidadão pode contratar para colocar em ordem os armários, o escritório, os utensílios, as ferramentas na garagem, a cozinha, a casa inteira. Este profissional organizará, colocará fora, e talvez indicará outras medidas para aqueles casacos que foram guardados há anos e que são usados apenas para ocupar o armário, para a mesinha que está na cozinha e que ficaria melhor como mesa de passar roupas lá no fundo da despensa, próxima aos mantimentos.

No consultório fazemos inúmeras vezes isso em um dispositivo que denominamos autogenia: a organização dos elementos internos de uma estrutura do pensamento.

Pois ao sair da PC World, notei que as folhas das árvores estão no pleno verdor nestes dias de outono; os canteiros estão em ordem, as flores não superam os limites dos canteiros, as pétalas devidamente arrumadas nos caules. Passou-me um pensamento de quando em algumas semanas as folhas se revestirem de tons dourados, marrons, castanhos e encherão as calçadas, os parques, os bancos de madeira com uma desarrumação lindíssima. Lembrei-me que muitas questões existenciais ganham seus melhores movimentos e arranjos na bagunça. A desorganização é o requisito para que algumas coisas funcionem. E isso não é uma indicação de que deve ser de um modo e não de outro, é claro. É apenas um comentário de uma idéia que me passou.

 

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