Artigos de Lúcio Packter

título - A revolução do átomo


artigos publicado na edição especial da revista Filosofia, da Editora Escala, sobre os Pré-Socráticos.

      Houve entre os Filósofos Gregos teorias sobre a composição da matéria. Entre estas teorias, uma se aproxima essencialmente da ciência atual: o Atomismo. O que vem a ser Atomismo? Em um sentido lato, consiste em princípios que tem como objetivo a explanação dos fenômenos utilizando pequeninas e indivizíveis partículas. Temos aqui uma Filosofia caracterizada por uma teoria analítica: as diretrizes que constatamos na natureza são ajuntamentos de diminutos componentes. Vamos considerar, inicialmente como se entabula o Atomismo desde seus primeiros movimentos, provavelmente no Século V a.C  por Leucipo de Mileto e seu aluno Demócrito de Abdera.

 

      Demócrito, de um feito singelo, ainda que formal, conseguiu um entendimento entre o movimento de Heráclito e a unidade e imutabilidade do ser defendidas por Parmênides. A maneira que Demócrito encontra para este entendimento é admitindo que a realidade se compõe de átomos (partículas indiviziveis) – o que era o pensamento de Parmênides – mas ainda de vácuo – negando agora a ontologia de Parmênides. Para Demócrito o movimento defendido por Heráclito surge,  precisamente da interação entre o ente e o não-ente (vácuo)

 

      Basicamente, o funcionamento ocorre da seguinte maneira: os átomos entram em choque entre eles mesmos e dão passagem aos corpos visíveis. Diferentemente do nosso mundo onde temos sofás, escadas, abajures, painéis que dividimos e  redimensionamos, no mundo dos átomos estes não se dividem, não se dissolvem uns nos outros. Em síntese, Leucipo  e Demócrito estavam interessados em trabalhar com a questão em torno da estrutura da matéria.

 

      Para eles existiria um limite a partir do qual a matéria não poderia ser partida, fragmentada. O que estes Filósofos argumentaram seria uma especulação sem lastro que a fundamentasse. Até que dois mil anos depois o conceito de átomo fosse formalmente institutído  na Ciência. A influência desta concepção encontraria ecos e desdobramentos ao longo da História do pensamento humano. A Física Epicurista aprofunda e traz novos elementos ao atomismo de Demócrito.

 

      Epícuro viveu entre os Séculos IV e III a.C  e descreveu o universo de maneira   próxima a como muitos o entendem ainda hoje: vazio, infinito, em eterno movimento, preenchido por matéria que tem em sua constituição os átomos. Indo além de Demócrito, Epicuro compreende que em sua agitação intrínseca os átomos experimentam um desvio (clinamen) próprio à natureza; este princípio explicaria a maior e a menor densidade da matéria.

 

      Lucrécio, poeta romano que teria cometido suicídio, segundo São Jerônimo, no ano 50 ou 51 a.C,  interpreta os trabalhos iniciados com Demócrito, imaginando que da união aleatória dos átomos teria aparecido, como consequência,  o mundo. Neste mundo a alma seria também constituída por átomos e assim terminaria com o término do corpo. A Idade Média com a influência soberana das concepções de Platão e Aristóteles, deixou  a margem os estudos iniciados com Leucipo e Demócrito.

 

      Muitos Séculos passariam, então à alvorada do século XVII, até que alguns estudiosos retornassem com vigor ao tema. Pierre Gassendi, por volta de 1660, procurou um elo entre o atomismo e a certeza cristã sobre a alma imortal. Goufried Wilhem Leibniz, em 1714, com a La Monadologie, traz um forte conteúdo metafísico ao atomismo. E muitos outros Filósofos viriam a se unir ao estudo, como os ingleses Robert Boyle e Isaac  Newton.

 

      Mesmo no século XX Bertrand Russell postula  ‘atomismo lógico’ em que traduz para a lógica as idéias analíticas adjacentes ao atomismo clássico. As conseqüências atuais são incontáveis: desde instrumentos como controle remoto sem fio, e estendendo a utilização a computadores, remédios, medicina, engenharia, agronomia, e a centenas de atividades e campos de atuação, o atomismo tornou-se um dos alicerces do mundo contemporâneo a partir dos primeiros estudos gregos em torno do átomo

 

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