Artigos de Lúcio Packter

título - A mente de Berlusconi


segundo artigo publicado na edição 31 da revista Filosofia, da Editora Escala.

 

O consultor Jeremy Rifkin, que auxiliou na introdução do plano de adoção de fontes renováveis em países como a Alemanha, afirmou que gente como o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, não entende que a crise de 1929 foi, entre outras coisas, a passagem do vapor para a eletricidade. É assim que, de um modo problemático, Berlusconi busca antigas soluções para novos problemas que não dizem mais respeito a elas.Desde o Renascimento, algo em andamento se propagava nos séculos XIV, XV, XVI: a pulverização de elementos dinâmicos na malha intelectiva de muitas pessoas. Até então, era usual que se utilizassem pensamentos, modos, ações que serviam igualmente no trabalho, em casa, na igreja, na vida, pois uma linha imaginária parecia conectar estes aspectos da vida.

A ética, as emoções, os valores, os juízos que uma pessoa utilizasse em casa serviriam para usar também no trabalho, nos campos, na cidade. A mente humana parecia unificada por fatores relacionados por princípios similares. Com o Renascimento, algo que vinha em marcha cresceu. Desde então, e até hoje, muitas pessoas fragmentaram suas vidas, suas mentes em setores que não necessariamente têm conversações entre elas. A ética, as emoções, os valores, os juízos que uma pessoa utiliza em casa não servem, inúmeras vezes, para vestirem no trabalho, nos campos,na cidade. A mente humana parece agora fragmentada por fatores relacionados por princípios diferentes entre eles.

Alguns vivem assim e caminham para um neo-iluminismo dos próximos dias. No consultório, no entanto, é comum que algumas pessoas nos cheguem com queixas que dão indícios de uma vivência na qual o indivíduo vive a complexidade de um mundo contemporâneo, mas com aspectos sólidos de uma mente do século XIV, ou anterior a ele. Um exemplo ocorre quando a pessoa informa que é muito feliz em casa, com os filhos e a mulher, mas que é um completo estranho, inepto, em seu trabalho - e pergunta ao filósofo clínico por que é bem-sucedido em uma área e tão infeliz em outra, como se uma coisa estivesse intimamente relacionada à outra.

Em um mundo com unidades aparentes, com realidades fragmentadas, podemos unificar os pedaços ou vivê-los em uma arquitetura destroçada. A questão é mais de ajuste do que de uma natureza ou outra. Talvez a compreensão de que passamos do vapor à eletricidade auxilie essencialmente nas variações que se apresentam.

 

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