Artigos de Lúcio Packter

título - A depressão de Gilma


artigo publicado na edição 18 da revista Filosofia, da Editora Escala.

Uma sugestão às farmácias: vender depressivos, angustiantes, hesitantes.

Prestei atendimentos, certa ocasião, a uma mulher que durante anos padeceu de um marido distante e de um trabalho no qual se sentia humilhada. Procurou terapia, exercícios respiratórios e passou a praticar uma curiosa meditação na qual inspirava e expirava proferindo obscenidades. Isso a auxiliou a manter a infelicidade em dia. Foi quando uma “depressão”, conforme ela chamava o que houve, lhe deu a oportunidade de romper com o marido e com o trabalho simultaneamente.

A depressão foi o melhor evento em sua vida por muitos anos. No consultório, Gilma dizia que indicava expressamente a depressão como um modo maravilhoso de lidar com muitas questões.

Em princípio, a depressão poderia auxiliar a colocar fim a relacionamentos desastrosos, poderia precipitar desempregos que mais tarde seriam insuportáveis, poderia ser um freio a uma sociedade que às vezes trata pessoas como uma frota de fusquinhas saída dos fornos das fábricas.

Gilma perguntou-me se eu poderia lhe prescrever um depressivo de vez em quando.

 Bem, na medida em que são possíveis as coisas, talvez um depressivo seja tão bem recomendado quanto um antidepressivo, assim como ambos muitas vezes nem precisariam existir.

Quantos se tornariam filósofos ao ingerir um angustiante, medicamento por inserção endovenosa. A própria seringa já movimenta alguma angústia. Um angustiante, quem sabe, levaria a psicologia a se tornar filosofia. A posologia da medicação teria conseqüências tais como tornar alguém levemente existencialista.

Filósofos que se medicassem com hesitantes poderiam moderar seus apetites marxistas até chegarem a uma social democracia que alguns países de direita professam.

Por motivos como estes é que decididamente médicos e farmacêuticos não devem prescrever drogas medicamentosas sem a anuência de um filósofo clínico.

O medicamento pode mascarar uma questão existencial legitima, pode perpetuar estados de escravatura existencial. Imaginemos como exemplo um sujeito que necessita de sua ansiedade para poder desenhar e criar anúncios em publicidade. Ora, ao ingerir um ansiolítico com  propriedade de desmantelar o estertor atenuando a vasca, o homem encontrará obstáculos em sua atividade. Talvez nem mais consiga executá-la.

Surpreende que a indústria farmacêutica tenha negligenciado fármacos como alienantes, convulsivos, frustrantes. Por que não existe um remédio contra a potência? O homem pediria ao farmacêutico um impotente, 20mg, em gotas. Algumas pessoas têm a impressão de controle sobre o medicamento quando o tomam em gotas, ao invés de comprimidos. Aparentemente é mais exato gotejar do que partir aqueles tijolinhos brancos que acabam se esfarelando sob a barriga da colher.

Muitas mulheres dariam aos noivos gotas de impotentes até o casamento, quando então o caminho usual das coisas cuidaria do resto.

De certo modo, não necessitamos de muitos argumentos para mostrar que a tristeza, a amargura, o medo,  o tédio são essencialmente indicados em diversas experiências da vida. É um fundamento clássico que o tango argentino requer alguma tristeza melancólica como embasamento para o romantismo. E provavelmente o nosso samba não existiria sem alguma preguiça diurna.

Se algumas pessoas ingerissem uma cápsula pela manhã de um persecutório de boa qualidade, e por se tratar disso o remédio somente seria oferecido em gotas, elas teriam outra postura diante do Senado, da CPMF, desta história fictícia de que estamos entre as 10 economias do mundo.

- “Imagine então como estão as outras...” – diria quem tomou um persecutório, 30 mg, já demonstrando os primeiros efeitos.

 Quantas mulheres não temperariam as saladas dos maridos aspergindo enciumantes? Multidões de maridos deixariam de consumir qualquer salada borrifada.

 As farmácias realmente surpreendem e perdem mercados tão amplos como os que possuem agora. Estão explorando apenas 50% desta depuração de minérios.

 Em Filosofia Clínica há muitos elementos que indicam se os procedimentos no consultórios serão norteados para extirparmos um sentimento como o medo crônico, para mantermos, para o associarmos a outros fatores, para o ignorarmos, para o compreendermos ou outra tomada de posição.

 Os medicamentos podem auxiliar nestes movimentos.

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