Artigos de Lúcio Packter

título - Estudo da Personalidade Estereotipada do Homem


artigo publicado na edição 60 da revista Filosofia, da Editora Escala.

     

Wilhelm Reich, um filósofo do corpo, escreveu em um verão, em 1946, um pequeno texto para uso interno de seu Instituto. Nesse escrito ele mostrava, entre outras coisas, o que o homem comum, classe média, homem universal de sua época, fazia a si mesmo. Sua visão de manada, suas reações de coisa, sua alma encarcerada. No consultório, aquele breve texto de Reich, Escuta, Zé Ninguém!, encontra atualizações várias.

No meu trabalho em consultório, como filósofo clínico, atendo pessoas em diversas cidades pelo País, ecos de estereotipia, que levam a atualizações do texto de Reich, ecoam. Vejamos um deles.

As mulheres deveriam saber, já que muitas parecem não ter notado, que homem é um ser em extinção. Algumas conseguem um exemplar em oficinas, igrejas, indústrias, com muita dificuldade, pois existem imitações ordinárias.

É urgente um movimento que hasteie cuecas, camisetas de educação física, de preservação aos últimos espécimes. Reservas ambientais deveriam ser criadas para que este esplêndido animal possa se recuperar.

Homem não gosta de aliança, de casamento, de imposto de renda, mas tolera. É um caminho para obter sexo, comida, um canto para dormir e beber água. Mas isso depois acaba sendo tão caro que ele deixa de comer direito e de fazer sexo - ao menos na jaula. Casamento, família, sogra, estas coisas foram feitas para a mulher; estão extinguindo os homens.

Não mande, nunca, flores para um homem. Homem mesmo é aquele que olha para uma flor como uma variedade da alface. Mande uma caixa de cerveja forte.

Homem não come brócoli nem sabe o que é. Come carne vermelha, malpassada. O pessoal fala mal, diz que homem é grosso, que arrota, mas isso é coisa que diz quem não conhece ou que não gosta de homem. Também gente que tem inveja. Tem muito invejoso por aí. Homem não arrota por falta de educação, arrota porque tem opinião.

Não dê carinho a um homem, ele vai pensar que você está doente. Bote uma lingerie e se incline entre ele e a TV no intervalo do jogo. Isso é o mais próximo de carinho que ele vai entender. Para um homem, a mulher é um ser maluco cuja melhor parte é a bunda. Não pense, nem em um minuto de sua vida, que um homem entende você. Se ele entendê-la, certamente não é homem. Homem entende de bomba de gasolina, de taxa de juro, de bunda.

Quer agradar convidando para ir a um cinema? Esqueça. Se quiser agradar, não incomode. Se não incomodar já estará agradando. Faça o seguinte: diga a ele que não quer casar, que tem alergia a filhos, que não menstrua porque fez aquele tratamento da Ana Paula Arósio, que não gosta de shopping, que não tem mãe, que sua família mora na África, que você quer sexo sem compromisso, que você ganha seu próprio dinheiro. Se ele acreditar, vai querer casar com você. Mas, atenção, não case! Ele vai saber que é armadilha. Se bem que homem mesmo, homem de fato, é burro para estas coisas; são facilmente abatidos, tanto é que estão em extinção.

Pelo menos uma vez por semana coloque uma cerveja na frente do homem para ver se ele está bem de saúde. Desinteresse pode ser febre, alguma infecção.

Não diga, nunca mesmo, que sua irmã vem visitar você. Homem não gosta de mulher que tem irmã. Diga que uma pessoa que deve dinheiro a você está trazendo o cheque; ele vai abrir a porta para ela e ficará por perto.

Quer sensibilidade? Cultive violetas, rosas. Quer amor? Compre um cachorro. Quer poesia? Leia Cecília Meirelles. Quer conversar? Messenger. Está sozinha? Convide uma amiga para tomar chá. Quer falar sobre aspectos ginecológicos? Ginecologista, claro. Se não aguenta certas coisas e quer se expressar, procure um padre. Mas se, de fato, você insiste em intimidades, se realmente quer se expressar com seu homem, se você é mesmo teimosa, e mulher é, fale que não é necessário trocar o carro, que este está bom; não é preciso pintar o muro, afinal, muro não se pinta; sua família vai se mudar da África para a Ásia; o time dele contratou o zagueiro da seleção.

Homem é mentiroso, fanfarrão, exibido, mas sempre de um modo viril. Minta para ele, diga que ele é bom de cama, que nunca você conheceu alguém igual. Ele vai acreditar. Diga que é bobagem ele fazer musculação. Para quê? Para tirar aquela barriga charmosa que se esparrama para fora das calças? Olha, é difícil um homem não acreditar em um elogio, a não ser quando a questão envolva dinheiro.Homem é um bicho pouco inteligente que acha que é inteligente. Alguns pensam que sabem tudo, têm um modo empinado de ver o mundo, e se têm dinheiro e trabalho, usam isso como argumento. São geralmente os mais burros, mas nunca discuta com eles, pois não entenderão. Homem, quando não entende, briga. Quando entende, briga. Quando briga, acha que está certo. É genético.

Lembre-se: quem se destaca é o homem; quem tem razão é ele; quem é homem é ele. Você é a mulher, fique sempre um passo atrás. Mesmo que saiba as respostas, pergunte a ele. Não chore, pelo amor de Deus! Geneticamente, o homem não tem como lidar com choro de mulher, ele pensa que é dor, não sabe distinguir.

Alva, uma jovem empresária, pouco mais de 30 anos, em 2011, pensa este arrazoado (!) de coisas sobre os homens. Enquanto caminhávamos e conversávamos, parte da consulta dela, Alva concluiu o assunto afirmando que, na opinião dela, a maioria das mulheres concordaria com ela.

Por escrever da forma que escrevia, entre outras ideias, Reich foi condenado à prisão em maio de 1956. Alguns meses depois, em março de 1957, esgotados os recursos, foi recolhido à prisão. Em novembro daquele ano, na penitenciária de Ludwigburg, Pensilvânia, morreu no cárcere por um ataque cardíaco.

 

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