Artigos de Lúcio Packter

título - Pequeno relato de um partilhante em consultório


artigo publicado na edição 53 da revista Filosofia, da Editora Escala.

      Pequeno relato de um partilhante em consultório

“Estes dias eu estava ouvindo um daqueles teus programas de rádio. Tem uma coisa lá que tu disseste que ficou me chateando depois. Fiquei irritado com aquilo. Tu sabes que eu e a I. nos divorciamos há dois anos. Ela está saindo com R., eu acho que tu conheces, é aquele cara que... Pois o comentário é que eles vão morar no apartamento dele. Eles, o meu filho (um menino de 5 anos), sei lá como é que vai ser isso.

Tem um monte de coisas minhas lá em casa (sic) que eu nunca peguei. A gente se dá super bem, ela não vai sair jogando nada fora. Se jogasse também não faria mal porque é tudo sucata que não sei onde botar mesmo. Claro que se ela jogar minha sucata fora eu vou ficar magoado. Mas eu fico magoado por qualquer coisa. Mas o que eu quero te dizer não é nada disso. É que o cidadão lá vai criar meu filho, entende? Vai estar com ele todos os dias e eu vou virar visita. Não, tá certo, claro que pai sou eu, pai é pai, eu sou o pai, isso aí não muda.

O cidadão é boa gente também, vai respeitar. Mas no rádio tu perguntaste qual o grau de parentesco dele comigo, com pessoas assim feito eu, que se divorciam e tal. Com gente como eu. O cidadão chega e casa com a minha ex mulher e vai cuidar do meu filho, vai ficar acordado, vai levar no médico, vai pegar na escola. Este cara é parente meu, é óbvio. Como é que não deram um nome para isso?

Tipo assim um cunhado. Cunhado não dá, ele dorme com a minha ex mulher. Olha aí, a ex mulher é parente, tem nome, é ex mulher, uma espécie de prima irmã com que a gente não se dá muito bem. O programa de rádio me fez pensar nisso. Quero ser amigo do R, já sou amigo dele há tempos. Fiquei meio chateado de saber que ele e a I. estavam por aí, mas fiquei mais desapontado do que chateado. É difícil pensar que alguém vai querer ficar com a ex mulher da gente. O R. agora vai entrar para a família, tipo um cunhado incestuoso. Não sei não.

Fico aqui imaginando que ele está pensando o mesmo de mim. Vai querer ter boas relações, aquela fachada toda, vai ficar me achando um cunhado ex incestuoso, um pai cunhado da criança que ele cuida, um meio primo. Irmão não dá porque é muito próximo; conhecido é distante demais, meio agressivo. Cunhado é a distância boa. Cunhado não apita nada, mas tem algum poder, quando vem em casa se sente à vontade, mas é convidado, não pode se estender muito, mas é de casa. Taí. Fala isso no teu programa de rádio.”

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